One Day, Complicações - Isabela

1º Parte
Assim que acordei a primeira coisa que fiz, ainda de pijama, foi atravessar a minha varando para a varanda da minha melhor amiga e bater na janela do seu quarto. Enquanto esperava que ela aparecesse observei a vizinhança. 
A minha casa era uma espécie de cottage antiga. O meu quarto tinha uma varanda onde bastava dar um pequeno salto para passar para a varanda da Cinthya, a minha melhor amiga. E eu adorava a minha casa por isso, além, claro, do seu telhado negro que parecia colmo, com paredes em tijolo vermelha e bege com janelas grandes e uma porta de entrada vermelha com um candeeiro que parecia de óleo antigo e o jardim era um encanto, com roseiras por todo o lado, flores, árvores de flor e fruto e lavanda espalhada. Era como uma casa de campo. 
A casa de Cinthya era mais moderna mas acolhedora, exteriormente, pois ela era quase presa em sua casa. Tinha aulas em casa, raramente saia e o seu quarto ficava no segundo andar e não havia maneira de ela saltar a não ser pela minha varanda. Mas não era por sua escolha mas sim porque os seus pais não permitiam que ela saísse e tivesse vida social. O que eles não sabiam é que eu era sua amiga e desde os meus sete anos que saltava da minha varanda para a dela. 
Ainda me lembrava da primeira vez que falara com Cinthya. Quando era criança ia para a varanda com a minha mãe e punha-me a desenhar enquanto ela me lia uma história. Certo dia não pude de deixar de reparar que mesmo ao lado da minha varanda, na outra casa, dois olhos azuis observavam curiosamente o que estava a acontecer. Mas quando espreitei a rapariga desapareceu para dentro da casa. A minha mãe também reparara e ainda me lembrava do que ela dissera em voz alta para que ela ouvisse. 
- Falta-te aqui uma amiga Isabela, quem sabe tenhamos que ir para dentro para procurar mas assim eu não acabava a história e ninguém ouviria o que irá acontecer. 
Eu e a minha mãe olhamos para o lado e a rapariga de olhos de olhos azuis e loira apareceu mas deixou-se ficar escondida, ouvindo a história que a minha mãe me contava que era a da Bela Adormecida. E na parte que a Aurora se pica na roca uma mulher entrou no quarto de Cinthya e chamou-a para a uma aula de canto e assim a rapariga desapareceu de novo para dentro de casa. 
A minha mãe ao ver que eu estava confusa encolheu os ombros. 
- Nem todas as crianças são criadas da mesma maneira. Não me admira que ela nunca tivesse ouvido um conto de fadas, Isabela – disse-me sorrindo levemente. – A mãe dela não gosta de coisas infantis. 
E continuou a história como se nada tivesse acontecido. Mas eu naquela altura não consegui esquecer. 
Nesse mesmo dia, a noite já ia alta quando sai da cama descalça e peguei no meu livro de contos e sai para a varanda. Pus o livro de contos no parapeito e com a ajuda de um banco ergui-me para ficar em cima do parapeito. Olhei para baixo, as alturas não me assustavam naquela altura, peguei no livro e atirei-o para a outra varanda. Saltei e atirei na outra varanda e bati na janela, saltando do parapeito para o chão. Peguei no livro de contos no momento que ela abria a janela e quase gritou se eu não tivesse tapado a sua boca. 
- Eu vim-te dar isto, esconde da tua mãe se não queres que ela saiba – sussurrei para ela retirando a mão da sua face. 
Ela com os olhos azuis arregalados olhou para a minha varanda e para mim espantada.
- Como é que fizeste isso? – Perguntou sorrindo admirada e com curiosidade.
- Se me dizeres o teu nome e seres minha amiga, eu mostro-te – disse-lhe entregando o livro. 
- Eu chamo-me Cinthya – disse timidamente. 
E a partir dessa noite ficamos amigas, a princípio falávamos apenas de coisas infantis, coisas que eu tinha e ela não. Ela não falava muito de si a principio mas com o passar do tempo, ela começou a contar-me porque estava sempre em casa, porque tinha seis aulas por dia e em pouco tempo ficamos inseparáveis e indetectáveis a família dela. O máximo que ela podia sair era para o jardim, que tinha um muro de 6 metros, por isso nem isso era suportável. 
Suspirei ao lembrar-me e então a janela abriu e Cinthya apareceu. Era uma rapariga alta, de cabelos loiros que iam até a sua cintura, olhos azuis enormes, pele de porcelana, lábios rosas e com as maças do rosto rosadas. Ela estava vestida com umas calças de pijama cinzentas e camisola de manga curta com os pés descalços. E nas suas mãos tinham um tabuleiro com bolinhos de creme caseiros que ela fizera e duas chávenas de leite com chocolate. 
- Bom dia – disse sorrindo completamente acordada. 
As vezes perguntava como é que ela conseguia sorrir? Ela vivia como uma prisioneira na sua própria casa! Mas eu não podia dizer nada, não valia a pena, ela já estava habituada. Sentamo-nos nos sofás que ela pedira a mãe para por na varanda e colocou o tabuleiro no centro de mesa. 
- Sabes que não era preciso fazer o pequeno-almoço para mim? – Perguntei-lhe pegando no copo enquanto me enroscava no sofá ficando com as pernas esticadas. 
- Estou acordada desde as seis da manhã e eu sei que tu não te ias lembrar de comer o pequeno-almoço. Além disso, não causou incómodo nenhum – disse encolhendo os ombros. 
- E achas que não vão ficar a desconfiar quando virem esta loiça suja? – Perguntei preocupada. 
- Sinceramente duvido, acho que eles não reparam e se repararem pensam que é o meu amigo imaginário.
Dei uma gargalhada, não pude evitar. Cinthya era muito optimista e demasiada inocente, mas também a pessoa mais corajosa que eu conhecia. 
- Vais ter aulas hoje? – Perguntei-lhe pegando um bolinho de creme. 
- Não é segunda, vou ficar com o dia livre o que significa que poderei falar contigo através de mensagens virtuais e poderei ler aquele livro que me emprestaste – disse sorrindo entusiasmada. – É melhor do que aturar aquela professora asquerosa. 
Sorri ao ver que ela continuava a não usar o calão e que estava feliz por não ter que aturar uma professora com sotaque francês. As vezes perguntava-me se ela mentalmente via bem as coisas mas então ela diz coisas deste género e eu respirava aliviado. 
- Bem, tens sorte eu vou ter um teste de inglês, mas graças a tu vou ter A de certeza – disse sorrindo mas então calei-me, envergonhada. 
Ela estava numa situação que eu não podia nem queria lamentar da minha situação, mas como sempre Cinthya não se importou. 
- Ah depois conta-me como correu, eu queria era te pedir um grande favor – disse olhando-me por cima do copo sorrindo envergonhada. 
- O que precisas?
- Não é o que preciso é o que quero que me faças – disse pousando o copo. – Já venho. 
Suspirei vendo que, ao ela abrir a janela, o seu quarto era praticamente de senhora, com uma cama de dossel, várias estantes com livros bastante pesados e académicos, uma secretaria arrumada com um enorme computador de última geração e tapetes caros e fofos. Mas eu sabia que por trás de cada livro que estava nas prateleiras ela guardava os livros que lhe dava, os filmes e os meus vários telemóveis antigos para ela usar. 
Ela entrou no quarto e foi directa a uma estante onde tinha várias fotos dela e pequenas esculturas que ela fizera, ela tirou de lá algo e regressou, era uma sacola preta um pouco grande. Ela sentou-se e olhou para mim. 
- Consegui com que me dessem uma máquina fotográfica, disse-lhes que andava aborrecida e que queria me distrair no jardim, eles deram-ma e eu queria que tirasses fotos. Mas se tu não poderes fazer isto não me importo – disse envergonhada alisando a mala. 
Olhei para ela um pouco emocionada, as vezes ela esquecia que eu fazia tudo por ela. 
- Claro que tiro – disse abraçando-a – eu vou tirar fotos a tudo que me aparecer a frente. 
Ela afastou-se e sorriu entregando-me a mala. 
- Vens para cá hoje, ver um filme comigo? – Perguntou-me sorrindo. – Depois das aulas?
- Depois da minha mãe chegar do trabalho – corrigia sorrindo. – Vai começar a trabalhar na mansão hoje e no fim-de-semana vai decorar a mansão para o baile de beneficência. 
Ela olhou automaticamente para a mansão que ficava do outro lado da rua.
Era enorme, com portões de grades grandes o suficiente para uma pessoa não conseguir passar, de detalhes impressionantes, com um jardim bem tratado com um caminho de gravilha e uma fonte no meio. E por entre as árvores podia-se ver a mansão grande e rica. Ela era provavelmente a maior da região, com mais janelas que eu podia contar, com duas espécies de torres, como se fosse uma espécie palácio, mas de resto só se conseguia ver isso. 
A minha mãe desde que me lembrava trabalhava uma a duas semanas na mansão por mês, os restantes dias tratava da contabilidade das empresas do rapaz que la vivia. Era estranho mas também era estranho quem lá vivia. 
A uns anos atrás a família que la vivia, uma família rica com empresas de alto sucesso, sofreram um acidente. Só sobreviveram os seus dois filhos, uma rapariga e um rapaz, mas esse era o mistério. A rapariga desapareceu no acidente e o rapaz que jura que ela foi raptada vive sozinho na mansão desde esse dia e desde esse dia nunca mais saiu da mansão. 
Ninguém que conheceu Jev Knight quando era criança faz alguma ideia de como ele é neste momento. Mesmo a minha mãe não sabia. Havia apenas uma pessoa que ele confiava e era um rapaz chamado Jake. Muita gente se perguntava se ele realmente estava vivo mas como ele continuava (mesmo sendo apenas um rapaz de 20 anos) a gerir as empresas da família, ninguém o incomodava.
Só uma vez por ano é que ele “dava” a cara, ele fazia um baile de beneficência, onde o tema era sempre um baile de mascaras e ele aparecia com uma mascara e leiloava algumas coisas por uma boa instituição. 
Ele fazia estes bailes desde os seus 17 anos de idade e este seria o seu quarto, tanto eu como Cinthya gostaríamos de ir lá, numa espécie de conto de fadas, Romeu e Julieta. Mas mesmo antes disso ela fascinava-se com a mansão. 
- Como será a mansão por dentro? – Perguntou-me olhando curiosa. 
- Um autentico paraíso, aposto, não sei nunca a minha mãe me levou. Vou ter que ir – disse levantando-me com a mala de tiracolo posta e subi o parapeito e saltei para a minha varanda. 
Olhei para ela, vendo que ela sorria para mim com o tabuleiro na mão, acenei-lhe antes de entrar no meu quarto. Tirei o saco e coloquei-o na minha cama. A minha cama era de solteiro, tinha duas mesas-de-cabeceira, um armário, uma secretaria desarrumada, roupas espalhadas e uma estante cheia de livros e ao contrário do quarto de Cinthya o meu quarto tinha cores garridas.
Vesti-me, com uma camisola azul de manga curta e umas calças de ganga azuis e umas sapatilhas pretas, coloquei a minha mochila as costas e a mala da máquina a tiracolo, sai do quarto, estava a passar pelo Hall perto da cozinha quando ouvi um tossir. 
Virei-me e entrei na pequena mas acolhedora cozinha vermelha e preta, a minha mãe estava a preparar algo no fogão e tinha uma manta nos ombros e tinha o nariz vermelho. Eu era bastante diferente dela, ela tinha cabelo ruivo e olhos verdes e muito morena, eu era morena e um pouco pálida, com olhos castanhos e mais baixa que ela. 
- O que tens? – Perguntei preocupada olhando para ela. 
- Estou bem – disse mas eu mal consegui ouvir, ela estava quase afónica. – Só um pouco mal disposta. 
- Estás doente, mãe – disse aproximando-me dela pondo uma mão na sua testa vendo que ela estava a ferver. 
Ela afastou a minha mão e serviu-se de café. 
- Não, não estou. Não posso estar, não nesta semana, preciso do dinheiro que Jev me dá nesta semana, Isabela. Eu preciso deste dinheiro para pagar as despesas da tua escola – disse-me enquanto mexia o café. 
- Tenho certeza que se contares ao Jev o que se está a passar ele poderá arranjar outra pessoa para arranjar a mansão – disse-lhe. – Mas tu estás doente, não podes ir. 
- Não, esta semana não posso falhar, é o baile, ele não pode adiar – disse a minha mãe nervosa. 
- Ele não tem o Jake? Ele que arranje alguém ou que prepare ele próprio. Diz-lhe que estás doente, ele é obrigado a pagar-te. 
- Tu não percebes Isabela, ele pagou-te a escola a um ano atrás e eu ando a receber mais que o salario mínimo, mas nós temos dividas, que ainda estão por pagar. A está altura do ano com o baile ele paga-me o triplo para que esteja perfeito com esse dinheiro conseguiria pagar-te a escola e pagar um pouco da divida. E ele já anda desconfiado que eu preciso de dinheiro. Não posso aceitar mais ajuda. 
Suspirei admirada e olhei para as caixas que ela usava para as limpezas e para o baile, a minha mãe era decoradora de casas mas perdera tudo e ganhara em troca dividas. Sim, ela precisava daquele baile. 
- Eu vou – disse – eu faço o trabalho. Telefona ao Jake, conta-lhe o que se passam diz-lhe para não contar ao Jev, por favor, faz isso, estás doente, eu faço isto, eu trabalho por ti, quando chegar a casa eu vou directa para lá e faz uma lista de indicações sobre o preciso de fazer lá. 
Ela olhou para mim e reparou que eu estava determinada. 
- Eu não sei como ele vai reagir mas eu farei, mas por favor segue o que te dizer a risca, meu amor. Ele confia em mim, se descobre… não sei como ele ira reagir. 
- Terei cuidado mas agora tenho que ir para as aulas. Adoro-te. 
- Também te adoro, Isabela – disse de volta sorrindo levemente.
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Kisses Lovewrite



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